Ler de novo é uma maneira de amar

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Há quem veja a leitura repetida como uma falha de memória. Num primeiro momento, parece que é mesmo, como se a segunda leitura resolvesse as lacunas da primeira leitura. Os apaixonados por literatura conhecem bem a história: um livro amado é lido mais de uma vez. Difícil explicar um amor desses para quem está de fora. As releituras são os carinhos que nunca deixaremos de fazer.
Há quem veja a leitura repetida como uma falha de memória. Num primeiro momento, parece que é mesmo. Como se a segunda leitura resolvesse as lacunas da primeira leitura. E quando falamos da décima leitura de um mesmo romance? Algum distúrbio neurológico? Não. É o amor.
Peguemos “Guerra e paz”, de Tolstói, como exemplo. Trata-se de um enorme romance. Quase duas mil páginas, centenas de personagens, vários deslocamentos, arco do tempo imenso. Certamente a leitura não dará conta de todos os detalhes de tal universo. Sempre fica algo para retomar: a personagem a quem não demos bola na primeira vez, um episódio que consideramos menor, uma fala que não havia chamado nossa atenção. Com um romance desses, cada releitura é uma nova leitura. Mas chega o momento, talvez na quinta leitura, em que conhecemos o livro de cor e salteado. O que fazer? Nunca mais ler “Guerra e paz”?
Não. As leituras devem se suceder normalmente. Não estamos mais em busca dos meandros do enredo. Todas as personagens são familiares. Decoramos grandes trechos de diálogos. O elemento surpresa sumiu ao final da primeira leitura. Ou seja: tudo parece indicar que o ciclo com “Guerra e paz” deve ser encerrado. Mas não podemos deixar de encarar um milagre: somos atraídos – e sempre seremos – pela voz de Tolstói. É uma maneira só dele de organizar o mundo, e, envolvidos pela vida turbulenta, precisamos de estabilidade. As leituras sucessivas nos tornaram íntimos das centenas de personagens do romance, e sentimos falta de suas vozes. E é assim, baseados no prazer, que nos tornamos especialistas em “Guerra e paz”.
Essa experiência radical de releituras pode ser levada a outras obras. Vai depender do gosto de cada um. “Dom Quixote” é um livro propício. O mesmo vale para os contos de Machado de Assis, os romances de Graciliano Ramos, os contos das Mil e uma noites, a Divina Comédia, etc.
E assim nos tornamos íntimos dos textos que mais amamos. Nunca é demais lembrar que o amor se concretiza nos detalhes.
Texto: Nelson Fonseca Neto, professor do Objetivo Sorocaba.



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